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A arte da viagem não planejada

 

Sem um plano sólido e meticuloso, uma viagem pode rapidamente acabar em algum lugar que você nunca esperou. E quem disse que há algo de errado com isso? Se perder, não marcar a quilometragem correta ou pedalar por um caminho mais longo do que você esperava pode ser uma aventura. E as melhores aventuras não são planejadas!

Parece haver uma grande quantidade de pessoas interessadas em aventura de bicicleta nos dias de hoje, a julgar pelo número de reportagens e postagens em redes sociais que leio. Viajar sob o poder do pedal é verdadeiramente uma mudança de vida. Mas será que precisa de tanta coisa para isso?

Pedalar rumo ao desconhecido é uma perspectiva completamente aterrorizante. Você não sabe nada sobre o que vem pela frente, você não sabe por onde começar e você imagina que sem saber essas coisas, você está desamparado.

O mecanismo de defesa natural é tentar coletar o máximo de conhecimento, para armar a sua autoconfiança contra o desconhecido. Rotas, logística, equipamentos, roteiros, prazos, soluções de meios de comunicação … Você constrói uma fortaleza intransponível de planejamento para que o desconhecido pareça um pouco menos assustador.

Mas ninguém lhe diz que o desconhecido realmente não importa, que o mundo não é um lugar perigoso. Que as pessoas não são ruins. Que ninguém vai te pegar. Que estradas e caminhos virão naturalmente.

Saber absolutamente tudo é desnecessário – a descoberta é um professor melhor do que um guia. Onde você realmente acabar sua viagem – e quando e como – geralmente é irrelevante para a experiência que você tem no caminho.

“O seguro morreu de velho”, assim vão dizer. Mas cuidado com o dogma. Questione tudo, até mesmo as mais sábias frases. Há sempre uma exceção à regra. Obviamente, se vai passar por uma região em conflito, é melhor se informar bem. Mas se o seu passeio é pelo interior, basta um mapa com cidades próximas como referência.

Eu planejei viajar por um roteiro já mapeado e “planilhado”. Tudo certo e cheio de informações no guia. Foi então que ao final de um dos dias de viagem, cheguei na beira da represa para pegar a balsa e atravessar até a cidade do outro lado, onde eu planejava pernoitar. Qual não foi a minha surpresa quando um morador local me disse que a balsa já havia terminado o expediente há 15 minutos! Mas no guia dizia que eu ainda tinha uma hora de tempo sobrando para pegá-la… O jeito foi dar a volta pela represa.

Um trajeto de mais 11 km percorridos no escuro (só uma lanterninha para ajudar), com estrada de terra e um sobe e desce sem fim, recortando toda a represa até chegar, tarde da noite, na cidade. Sentei em um trailer lanchonete que estava na praça vazia e pedi um lanche que foi cruelmente devorado!

A pousada em que planejava ficar já estava fechada e perguntei ao dono do trailer se conhecia outro lugar onde eu poderia pernoitar. E para a minha felicidade a pousada era dele! “Como está vazia, eu fechei e vim para a praça tocar meu outro negócio…”, ele disse sorrindo.

Bonito mesmo é quando tudo acontece por acaso, sem data, sem horário…

Deixe com uma lousa em branco

Eu não havia planejado isso. E no fim tive uma grata surpresa. Também tive que engolir toda a minha raiva e o meu ego e assumir que estava errado em meus planos.

Se o seu objetivo é ter uma aventura de mudança de vida, por que ter um plano para que isso acabe o mais rápido e previsível possível?

Se você quer aprender alguma coisa, saia com uma lousa em branco. Prepare-se, por todos os meios, mas não planeje tudo com uma pesquisa meticulosa. Nem todos os planos são tão necessários e você pode perceber que existem muitos objetivos que realmente não precisa alcançar. Não se prenda a ter que posar de forma certa para sair na foto, nem ter que andar vestido parecendo um piloto de corridas. Nada disso importa!

E se há uma decisão que eu estou feliz por ter feito, foi de largar todo esse planejamento e buscar o meu verdadeiro foco, que é o desejo de viajar de bicicleta.

Bonito mesmo é quando tudo acontece por acaso, sem data, sem horário…

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